Sunday, August 17, 2008

Esperança

Às vezes sinto que há pessoas que não valem a pena. Não ouvem, não sentem, não se permitem crescer ouvindo os outros. Estão antes sempre mais preocupados em terem razão e acham que isso reflete pura segurança. Não percebem que quanto mais criticam e condenam (tantas vezes sem o mínimo conhecimento de causa) menos respeitam o “indivíduo humano”. Não ouvem, nem querem saber que as pessoas podem ser diferentes, sentir de formas diferentes, ter prioridades diferentes, amar de forma diferente e nenhuma é mais correcta que a outra, que não somos ninguém para achar que sabemos isso. Como se houvesse apenas uma elite de seres humanos a respeitar: aqueles que pensam exactamente como elas!

Aconteceu-me várias vezes na vida encontrar entre as pessoas que mais se dizem defensoras da liberdade humana, as mais intolerantes, aquelas que menos se preocupam em entender os outros,em pôr-se no lugar do outro, em gostar e respeitar (verdadeiramente) os outros como eles são, aquelas que mais mal vêem em tudo. Aquelas que criticam e condenam culturas, rituais e tudo o que não entendem apenas porque… não os entendem… e dizem que estes prendem as pessoas (?!?), que as crianças devem ser isoladas de tudo isso porque.. so devem viver quando puderem escolher (?!?).. (sera que é suposto até lá po-las em stand bye?) Aquelas que não suportam ouvir o que os outros pensam delas ou sentem na presença delas ou interpretam do que elas são. Aquelas que gritam e não ouvem. Aquelas que olham para todos menos para si próprias.

Aconteceu-me várias vezes encontrar pessoas que se acham mais inteligentes que os outros, encadeadas por esse ego cheio e prenderem-se apenas a factos concreto-cientificos, denegrindo tudo o resto que não se pode provar, apenas sentir. Claro que são muuuuito mais inteligentes e iluminados!! E claro, muito mais felizes e respeitadores da liberdade alheia… porque acreditar em algo que não se prova, apenas porque se sente e querer espalhar essa fé.. é apenas medo e idiotice.

Às vezes entristece-me saber que é “muito mais fashion” ou (pseudo)-intelectual deixar matar uma criança do que um touro. Porque em termos absolutos é mesmo assim que é.

Às vezes entristece-me ver que as pessoas não se conhecem verdadeiramente, apenas convivem. Que as pessoas não crescem umas com as outras, apenas fazem birras. Que as pessoas têm muito mais de orgulhosas que de humildes. Que as pessoas não gostam verdadeiramente umas das outras.

Às vezes acontece-me perder a esperança nos Homens. Mas quando isso acontece lembro–me de uma frase:

Every child comes with the message that God is not yet discouraged of man.

Rabindranath Tagore in Stray Birds

E recupero algures dentro de mim uma esperança renovada. E é então que percebo porque é que me sinto tão bem entre os miúdos – porque eles estão de facto mais perto do que é simples, puro e genuíno. Porque eles e a nossa missão de os educar e orientar enquanto crescem fazem com que a esperança nunca morra e com que possa sonhar com um mundo melhor, mais justo, mais coerente, menos hipócrita, menos apático e que... faça mais sentido.

4 comments:

Flip said...

Ana,

Não podia deixar de fazer um comentário a este post. Já não é a primeira vez que expressas que te refugias nas crianças para não sofreres com a hipocrisia, intolerância, crueldade e ausência de puresa dos adultos. O mundo não pode ser visto assim, a nossa realidade não pode ser vivida através dos olhos de uma criança, pois o mundo não se rege por essas regras. A ingenuidade aliada à ignorância não são formas de se ver o mundo, não são formas de construir um caminho, de nos construirmos como pessoa. As crianças são puras e genuínas mas também são influenciáveis, crueis umas para as outras, não se regem ao início por normas e regras da sociedade. Acho que estás com alguma dificuldade em contextualizar as situações, em perceber a realidade que te rodeia e principalmente em entender como funciona o ser humano. A solução passa pelas crianças porque são mais maleáveis, porque estão mais receptivas em termos de aprendizagem e portanto facilitam o nosso trabalho. Facilitam porque não conseguem ver "the big picture", porque vão acabar, mais tarde ou mais cedo, por aceitar aquilo que lhes dizes por um conjunto de factores que nada têm a ver com estares certa ou errada naquilo que lhes transmites, mas apenas porque acabas por ser para elas uma referência resultado do tempo que passas com elas, da forma como as ajudas, da forma como as tratas. Tu, tratando-as bem, alimentando-as e cobrindo-as quando elas têm frio (principalmente crianças necessitadas como aquelas que normalmente lidas) encontraste numa posição de força, de referência para elas, sendo que tudo o que lhes dizes está certo e elas nem questionarão.

A única questão aqui é se estás ciente dessa responsabilidade, se tens a certeza que tudo o que lhes ensinas é correcto, se tudo o que lhes transmites é o mais correcto, se num caso extremo é justo elas verem o mundo segundo a tua perspectiva e somente essa. Eu acredito que faças um bom trabalho e sabes que te admiro na maioria dos actos que promoves mas não te refugies nelas, não está só aí a esperança num mundo melhor.

beijinhos

Ana said...

Já há muito tempo que não lidas com crianças, certo?;)

1. Elas não engolem nada do que lhes digo: elas perguntam, questionam, pensam... porque é assim que as ensino: a terem cabeça própria. A não aceitarem ou negarem nada só porque os outros o fazem, só porque a maioria dos amigos o fazem, só porque parece mais inteligente e evoluido assim, só por... preconceito. E mesmo que não as ensinassse assim... acredita que uma criança no seu estado mais genuino, não é cruel, é sincera, não é maleavel, é aberta ao mundo que a rodeia. E crítica, MUITO crítica. As crianças questionam mais.. mas tão mais do que os adultos e melhor também! É por isso que tantas vezes digo que aprendo certamente mais eu com elas do que elas comigo. Porque elas fazem-nos pensar e sentir em coisas que não vêm nos livros e em coisas que a maioria dos adultos não perde tempo a pensar.

2. O conceito do que é verdadeiramente errado e correcto ninguém os tem. ninguém sabe. ninguém é ninguém para saber isso. E essa é desde logo a primeira coisa que lhes ensino. Tal como os ensino a criarem uma consciencia própria. A pensar em correcto e errado apenas pondo-se no lugar dos outros (uma coisa que falta tanto mas TANTO às pessoas na sociedade de hoje). Ensino-os a não se acharem mais espertos ou melhor que os outros e a respeitar (verdadeiramente) toda a gente. Ensino-os a serem humildes mas a pensarem sempre por si. Ajudo-os a pensar, mas não tiro conclusões por eles.

3. Sim, tomo a responsabilidade do que lhes ensino. Prefiro "refugiar-me" em ajudar a educá-los do que refugiar-me em não fazer nada e a passar ao lado da minha e da vida dos outros como se nada pudesse fazer. Posso. E faço. E vou sempre fazer. Apesar de achar (saber) que eles não vão apenas imitar-me e muito menos só porque sim, sei que lhes posso dar boas referências, referências essas que não fazem (nunca fizeram) mal a ninguém. porque sim, todas a crianças precisam ser orientadas e ensinadas e isso NAO quebra a liberdade delas.. (se não fosse tão perigosa e triste esta ideia até podia ser cómica).

4. Sim, entristece-me bastante que hoje em dia se olhe para a educação das crianças como um atentado à sua liberdade. Qualquer coisa que se ensine a qualquer pessoa, desse prisma, é um atentado à liberdade... lol É ridiculo. É uma desresponsabilização da sociedade. Porque todas as crianças, todos os seres humanos vão estar sempre expostos a.. tudo o que as rodeia. Pensar, sentir e viver com elas... não, não lhes faz mal nenhum, disso tenho a certeza. E sim, não te preocupes, tomo toda a responsabilidade;) As crianças não vêem o mundo da minha perspectiva: 1º porque eu não lhes impinjo nada, 2º porque não me conhecem só a mim (estão expostas - digo eu - a todo o mundo à sua volta) 3º porque têm (sim, têm) cabeça própria, 4º porque uma pessoa, seja em que altura da vida for é sempre o resultado de todas as experiencias que vive e daquilo que em cada momento escolhe ser. E eu apenas sou uma das muitas influências que sempre vão ter na vida. Se acho que a minha influência as ajuda a serem pessoas melhores e a tornarem, uma a uma, o mundo num sitio melhor... pois claro que sim! Mas defenitivamente não sou eu, sozinha, um factor determinante.. serão elas que um dia seguirão mais por um caminho ou por outro.

Não me entrego ao que acredito porque não tenho mais nada para fazer ou porque não quero pensar no resto. (qual resto?) Entrego-me ao que acredito porque essa é a minha vida, porque vivo consoante aquilo que eu sou e aquilo que eu quero. vivo para aquilo que quero ser e para "ser a diferença que quero ver no mundo"... e sim, todos temos esse direito;)

A solução passa pelas crianças porque ainda não se deixaram corromper.. pela perguiça, pelo que é "moda", pela apatia, pelo medo (dos outros, de nós e do mundo), pelo egoísmo. Não passa só por elas... mas cada um tem a sua vocação e eu sinto que a minha é particularmente com elas. Se tenho esse direito.. acho que sim;)

Acho.. triste, muito triste, que sob o lema de "liberdade para todos" as pessoas se desresponsabilizem do mundo em que vivem e umas das outras e que (ironia das ironias) não sejam de todo capazes de respeitar quem pensa de forma diferente (porque não respeitam, mesmo que digam que sim;))

Por fim... Às vezes era melhor se antes de darem opinião sobre o que não sabem as pessoas saissem do seu mundinho de certezas e se pusessem no terreno, conhecessem as pessoas (neste caso as mais pequeninas) e o mundo como eles são na realidade e não so na teoria dos livros de psico (pseudo) filosofia... e aí sim, valeria a pena discutir o que quer que fosse;)

Francisco Costa said...

1-1

CABRAL, CABRAL, CABRAL! !

Ana said...

LOL. O meu comentario preferido.. ever;)